Ser um ciborgue não tem nada a ver com quantos bits de silício temos sob nossa pele ou com quantas próteses nosso corpo contém. Tem a ver com o fato de o sujeito ir à academia de ginástica, observar uma prateleira de alimentos energéticos para bodybuilding, olhar as máquinas para malhação e dar-se conta de que ela está em um lugar que não existiria sem a idéia do corpo como máquina de alta perfomance (p.26).


Este artigo é parte de um estudo teórico que vem sendo realizado no grupo de pesquisa “Estudos Culturais, Identidades/Diferenças e Teorias Contemporâneas” e “Relações de Gênero”, tendo como embasamento teórico, à influência do pós-estruturalismo[1] francês. Visa-se discutir a desnaturalização da materialidade do corpo e seus atravessamentos com a performatividade de gênero, utilizando a figura do ciborgue para retratar questões relativas ao corpo, à tecnologia e as práticas esportivas.

Os agenciamentos produzidos pela relação corpo-máquina tornam-se relevantes de estudo, devido à importância que assume na produção da subjetividade e na sua inclusão dentro do sistema social mais amplo. Pensamos que uma das funções da psicologia social na atualidade é a de realizar uma ontologia do presente e colocar em questão quem somos e como nos constituímos historicamente. Será neste exercício de estranhamento do objeto e do senso comum, que será possível historicizar as práticas e mostrar o caráter construído do social.

Os próprios sujeitos estão empenhados na produção do gênero e da sexualidade em seus corpos e ao ousarem se construir como sujeitos nesses espaços, na resistência e na subversão das normas regulatórias, eles/as parecem expor como essas normas são feitas e mantidas. Não poderíamos deixar de nos perguntar, então, sobre os campos de possibilidades que se abrem com o irrompimento dessa interação corpo-máquina.