A criatura não agoniza, sorri fixamente – linha horizontal estirada na face. É instalada uma figuração ritual. A junção imperfeita entre corpo e aparatos delineia um gesto fágico.

Na performance Ciberpsicomagia,[11] a fita que atava a boca da criatura, desaparece. Abre-se espaço para uma fala lacônica que oscila entre a lucidez e o delírio. Códigos binários interrompem os fluxos de voz. Victoria Synclair entrevista a Metasubcibertrans que, desta feita, já não mais apresenta aparatos técnicos.

Permanece a máscara na qual se entrevê apenas a boca, descargas elétricas perfazem sons codificáveis:

Miserável e divina criatura. Povo yanomami[12] me tocava muito delicadamente. Abriram minha placa mãe. Aprenderam sobre os critérios da evolução. Meu corpo era um objeto experimental. Para eles entenderem porque não acreditamos em evolução[13] (Borges, F, 2008).

São trazidos à cena espíritos indígenas. Em performance anterior, a artista já havia invocado os índios guaranis kaiowás de Mato Grosso, que, na ausência de alternativas dignas de vida, cometem suicídio ritual. São estes índios que a abrem e perscrutam a placa mãe atada à pélvis.

O corpo híbrido se converte em objeto experimental. Com o que sonham os índios que a abrem? Tocam-na,

 

delicadamente, num gesto desencantado – do experimento. Uma vez sonhados, os índios são incorporados ao laboratório estendido da artista – tecnomagos que atuam nas interfaces maquínicas e oníricas (Synclair, V., 2008).

A carcaça do computador se mistura ao visco dos alimentos. Obsoleta, perecível.

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